< Entrevista com Nelson Sato - 07/09/2007 >
 
 

 
 

Muito já se ouviu falar em Nelson Akira Sato (Dono da Sato Company, e não por acaso, um dos homens que mais contribuiu para o tokusatsu no Brasil), e hoje com a colaboração do entrevistador Luiz Guedes, o empresário abrirá o jogo e revelará os segredos dos bastidores e estratégias de mercado de suas séries!

Guedes - Como e quando surgiu o seu interesse em trabalhar com séries japonesas? O Sr. diria que foi influenciado pelo sucesso do Toshihiko Egashira, da EVEREST VIDEO/TIKARA FILMES?

Nelson Sato - Minha história se confunde muitas vezes com a do Toshi, que éramos jovens orientais no mercado de vídeo, primeiro como donos de locadoras, depois como distribuidora. Na realidade fundei a Brazil Home Video em 1985 e fomos os primeiros a negociar com a Toei co. e alançar desenhos no Brasil, inclusive antes da Disney. Isto foi em 1985. Trouxe nesta epoca alguns desenhos longa metragem. Depois da volta desta minha primeira viagem de negócios ao Japão, recebi a visita do Toshi que também me disse que iria começar uma distribuidora e gostaria de saber com quem eu negociava na Toei, etc. Como amigo lhe dei as informações e depois disto o Toshi viajou e tambem comprou produtos na Toei.


Guedes - Houve alguma série da TOEI ANIMATION que o Sr. quis comprar, mas não conseguiu? Por isso recorreu para series da TOHO COMPANY, no caso,os CYBERCOPS?

Nelson Sato - Nesta visita do Toshi, falei a ele que fiquei muito impressionado com o sucesso de seriados Live-Actions (tokusatsu) no Japão, em especial Jaspion que estava no ar naquele ano, com diversos brinquedos e parques tematicos, shows, etc...falei para ele: imagina se isto existisse na nossa infancia, quando gostavamos de "National Kid", "Ultraman"!
Acho que o bate papo com o Toshi o incentivou também nesta idéia. Como a Toei acabou fazendo negócios com o Toshi num projeto que eu também havia imaginado, acabei ficando chateado na época com o Toshi e Toei e fui atrás da Toho para fazer o mesmo negócio, com um produto novo: CYBERCOP .

Guedes - Conte-nos sobre o Show dos Cybercops. Como surgiu a idéia de se fazer shows com os herois no Brasil? Foi difícil conseguir trazer as armaduras para o Brasil?

Nelson Sato - A idéia não era original. No Japão já se faziam shows com os personagens. O circo foi uma adaptação deste tipo de evento no Brasil, inclusive para popularizar os personagens. Neste ponto o Toshi também já tinha feito com seus seriados e também mostrou ser eficiente. Trazer as vestimentas nao foi fácil, pois tivemos que negociar com a produtora e distribuidora, alem do problema de peso. Foram mais de 600 kgs de vestimentas!


Guedes - Quem escreveu e quem dirigiu o show dos Cybercops? Por que não mantiveram as vozes originais,
os mesmos dubladores, na hora de montar o show? Por quanto tempo durou o show e porque não houveram turnês pelo Brasil?

Nelson Sato - Quem escreveu foi Julio Kishinami filho e quem dirigiu foi Adriel de Almeida. Não usamos as vozes originais por problemas com os dubladores, que além de pedirem mais do que a tabela normal de dublagem, queriam participação na bilheteria. Não achei correto e coloquei outras vozes. A turnê ficou somente no estado de SP devido a custos.

Guedes - Na época da exibição dos Cybercops na Rede Manchete, a série era constantemente reprisada.
A emissora exibia a série do episodio 1 ao 10,depois reprisava novamente e exibia do 1 ao 11, depois do 1 ao 12, 1 ao 13 e assim sucessivamente. Essa foi uma estratégia/imposição sua para que a série pudesse durar mais tempo no mercado?


Nelson Sato - Foi. Como a série tinha somente 34 episódios, usei desta técnica para esticar a vida da série. Apesar das críticas, acho que funcionou.

Guedes - Porque, mesmo com o sucesso da série dos Cybercops, os últimos episódios não foram exibidos
na extinta rede manchete?


Nelson Sato - Esta foi uma estratégia de marketing para gerar comentários e desejo... Funciona até hoje! Logo Cybercop teria condiçoes de retornar com muitos ainda desejando ver o final!

Guedes - Ano passado surgiu um video de um fã, Rodrigo Idalino , vestindo as armaduras originais dos Cybercops! Tal vídeo fez bastante sucesso na internet! Agora eu lhe faço a seguinte pergunta; Porque as armaduras estão em um estado lastimável? Capacetes quebrados, botas moídas, peças
faltando! Porque não houve um cuidado maior em se conservar essas armaduras? O Sr. as venderia ou alugaria para eventos de anime/tokusatsu? Porque não as reforma?


Nelson Sato - Como você soube, trouxe as vestimentas originais usadas no filme, logo já vieram usadas e com desgastes. Quando fizemos os shows no brasil ocorreram mais desgastes e má manutenção (um dos motivos que também me fizeram desistir da continuidade dos shows). A fase que pensei em vender já foi. Agora vou deixar para meu arquivo pessoal.

Brinquedos Oficiais de Cybercop

Guedes - Em entrevista, Rodrigo Idalino disse que o Sr. ainda guarda muitas coisas relacionadas a série dos Cybercops. O que mais chamou a atenção dos fãs foi a presença de bonecos originais japoneses em sua casa. Na época havia interesse seu em trabalhar com produtos importados?

Nelson Sato - sim. A idéia era importar os bonecos produzidos pelas fábricas japonesas que tinham uma qualidade incomparável, mas infelizmente os custos na época inviabilizaram a ideia....

Guedes - O Sr. ainda possui os direitos de series como Cybercops, Super Human Samurai, Ultraman, National
Kid?


Nelson Sato - Represento algumas séries e tenho o primeiro direito a renovação de outros!

Guedes - Em 95/96 o que o levou a trabalhar com séries tão antigas,como ultraman e National Kid?

National KidNelson Sato - O mercado de saudosismo. Da mesma forma que hoje os fãs sentem saudades do Cybercop, minha geração sentia saudades de National Kid e Ultraman!

Guedes - Na sua visão de empresário, qual o fator que levou o gênero Tokusatsu a cair em decadência?

Nelson Sato - Tudo que é demais cansa. Devido ao sucesso que obtivemos , todas emissoras buscaram por seriados japoneses! Teve ano que tínhamos 13 seriados no ar! Acabou desgastando o produto...

Guedes - A série dos Cybercops conseguiu fazer milhares de fãs pelo brasil. Mesmo fora da mídia a anos ela ainda é cultuada por diversas pessoas, com comunidades no orkut com mais de 60 mil menbros! Porque o Sr. não volta a trabalhar com ela novamente? Existe alguma possibilidade do lançamento dessa série em DVD? Caso o Sr. não tenha interesse, venderia os direitos da dublagem para terceiros?

Nelson Sato - Sim , existe a ideia de lançar em DVD, mas ainda sem data definida... A pirataria é muito alta e o investimento elevado!

Guedes - Na época que adquiriu os direitos dos Cybercops, porque o Sr. não comprou os episódios 35, 36 e os especiais para vídeo?

Nelson Sato - Para mim não fazia sentido comprar episódios que eram "os melhores momentos"...pensei também em fazer o mesmo com o programa no Brasil, usando a apresentadora na época e também receber cartas, fazer comentários, etc...

Guedes - Conte-nos como os dois últimos episódios DUBLADOS, nunca antes exibidos na TV, foram liberados
para os fãs. O Sr. cedeu uma cópia dos últimos episódios para alguém?

Nelson Sato - De tanto os fãs me pedirem, numa época resolvi atender o pedido e liberei um VHS.... Deve ser este que alguns já puderam ver...

Guedes - É sabido que as séries vinham em pelicula que depois de dubladas passavam para fitas beta MASTERS. o Sr. ainda guarda todos esses materiais? Qual o real estado desses materiais de séries como Cybercop, National Kid, Ultraman, Super Human samurai, Samurai Warriors?

Nelson Sato -
As séries vinham em fitas Beta, Umatic, ou 1 polegada, nao em película! Sim, ainda guardo as masters e estão em perfeito estado de uso!

Guedes - Como empresário, o Sr. acha que séries consagradas como Cybercops, Jaspion, Changeman, Black Kamen
R ider e etc trariam retorno caso fossem lançadas em DVD? Acredita no potencial delas nos dias de Hoje? O Sr. acha que existe mercado para isso, nem que seja apenas em DVD?


Nelson Sato - sim, sem dúvida!

Guedes - Em meados do ano 2000, estreava na CNT o programa Sessão Super-Herói! Como surgiu esse projeto? O Sr. bancou sozinho a produção desse programa? É verdade que a apresentadora era a sua filha? Porque o programa não vingou?

Nelson Sato -
Com a falencia da TV Manchete , fomos buscar outras emissoras para dar continuidade ao nosso trabalho e acabamos fazendo este programa. Banquei sim o projeto e a apresentadora era minha filha, Jacqueline Sato. O programa não foi em frente porque a cobertura da CNT era baixa... Em SP virou UHF (tinham encerrrado a parceria com a Gazeta...) E não houve retorno comercial...

Guedes - Em 1980, quando o Toshi saiu do brasil e foi para o Japão como bolsista e se interessou em relançar o gênero Tokusatsu por aqui, várias empresas não acreditavam no potencial das séries que ele queria trazer! Diziam que elas eram um "National Kid moderno" e que essas séries não iriam mais vingar. O Toshi acreditou e trouxe essas séries sozinho. Em pouco tempo elas estouraram na televisão!
O Sr. não acha que estamos vivendo uma época parecida? O Sr. não pensa em trazer um novo Jaspion, um novo Cybercop para o Brasil? Séries desse gênero ainda fazem sucesso lá fora e já são conhecidas entre os fãs que baixam as novas produções via internet. Por que não trazer as novas produções japonesas desse gênero?


Nelson Sato - Depende sempre das oportunidades e sensibilidade inclusive e principalmente das emissoras..

Guedes - O gênero SUPER SENTAI, nome este atribuído a series com quinteto colorido, vide Changeman, Flashman e Maskman foram compradas pela Disney. Logo as novas séries Super Sentais produzidas no Japão são adaptadas e transformadas em POWER RANGERS. O Sr. Saberia dizer se mesmo com o contrato existente com a Disney, a TOEI venderia um seriado Super Sentai original para o Brasil?

Nelson Sato - A prioridade depois do sucesso Power Ranger é da Disney, que compra os direitos mundiais!

Guedes - Com o sucesso da adaptação dos Power Rangers em 1993 pela SABAN ENTERTAINMENT, várias outras séries japonesas foram adaptadas e refeitas nos moldes do padrão americano. O Sr. adquiriu SUPER HUMAN SAMURAI, que é uma adaptação americana da série japonesa GRIDMAN. Porque o Sr. não trouxe a série original, no caso, GRIDMAN? Houve algum impedimento?

Nelson Sato - Da mesma forma, a DIC Inc. dos EUA adquiriu os direitos mundiais do Gridman. Quando quis comprar, tive que negociar e comprar a versao americanizada.

Guedes - Atualmente você adquiriu o anime Let's & Go! O que o levou a trazer esse anime? Qual o retorno que você espera com esse novo projeto? E quais os seus projetos futuros?

Nelson Sato - Acredito que o anime tenha bom potencial por ser ligado a carros, já que desde Speed Racer nao se via algo neste segmento. Projetos futuros? Isto é segredo comercial!!! O atual está sendo Naruto no SBT!


Guedes - E pra finalizar, o Sr. se arrepende de ter feito ou de não ter feito alguma coisa em relação a essas séries? Que balanço você faria da sua trajetória como empresário desse meio? Que conselho você daria para uma pessoa caso ela queira entrar nesse mundo de negócios para trabalhar com essas séries?

Nelson Sato - Nao me arrependo de nada. Me sinto muito feliz em ver que um trabalho que fizemos (Toshi e eu) acabou desenvolvendo-se primeiro aqui no Brasil, algo que somente depois a Saban fez. Trouxemos um pouco da cultura contemporânea do Japão e que hoje diversos segmentos seguiram. Desde eventos (Animecon, Animefriends, etc), produtos licenciados, segmentos em TVs a cabo (Jetix, etc), DVDs, revistas e editoras, etc...realmente gratificante... Aos que pretendem iniciar, meu conselho: acreditem em seus sonhos e lutem para realizar!

Guedes - Com total exclusividade que apresentei para os Tokufãs uma entrevista inédita com Nelson Akira Sato, dono da SATO CO. Foi com muito carinho que Nelson Sato me cedeu essa entrevista.